Dia 7 – Quinta feira
Vou de comboio.
Falo ao telefone com uma das minhas amigas, que me diz que, seja o que for, a parte psicológica é muito importante.
Claro que me assusta se tiver algo maligno. Mas assusta-me mais NÃO SABER o que tenho.
Sempre fui assim: a partir do momento em que sei contra o que luto, preparo as armas e vou prá guerra. A minha teimosia há-de servir para alguma coisa, certo?...
Por isso, vou sossegada, serena, expectante com a ideia de estar com Ele.
Tenho muitas saudades Dele.
A minha pele ainda revela borbulhitas, o meu cabelo não gostou das mudanças de águas, não me sinto “perfeita”.
Um testamento imaginário vai-se desenhando na minha mente, e penso como é engraçado que, apesar de ter tão pouco, não gostaria que as minhas coisas se perdessem. A parte difícil é distribuir os livros, que são bastantes, e de diferentes temas.
A minha outra amiga, que sabe das coisas, chama-me “parva” pelo tipo de pensamentos, e eu reconheço que é “cedo” para pensar nisso, mas na verdade, independentemente de tudo, os meus herdeiros legais são os meus pais, pois nunca fiz testamento de coisa alguma, e talvez devesse fazer.
Tenho esses pensamentos, misturados entre outros, que vão e vêm na minha mente. Os receios, as dúvidas, os aspectos práticos da minha morte (e a morte não deixa de ser o que temos de mais certo na vida), a perspectiva de sofrimento e a lembrança da coragem da minha tia Zi, lutadora até ao fim..
Mas acima de tudo, só consigo pensar que, haja o que houver, hoje vou estar com Ele...
Chego.
Desencontramo-nos na saída da estação.
Até que O vejo.
“Lindo...”, penso, e sorrio.
Ele aproxima-se e eu estico os braços.
Abraçamo-nos, e neste abraço em que me afundo, sinto a segurança do mimo Dele, e a dúvida do “Até quando?... Até quando e quantas vezes mais, terei este abraço?...”
Vamos dar uma volta, e num bar na praia, durante a conversa, Ele menciona uma amiga a quem lhe surgira um cancro no peito.
Olho para Ele, para o rosto preocupado Dele e penso: “Não, não vou mesmo falar nisto enquanto não souber o que se passa.”
De tempos a tempos, a olhar o rosto Dele, a olhá-Lo, sinto o medo a querer dominar:
“E se não tivermos mais dias destes?...”
Mas Ele dá-me a mão, abraça-me, beija-me, e eu afasto o medo, afugentando-o com sorrisos e trocas de mimos...
Mais tarde, usufruo da companhia do meu irmão e da minha cunhada.
Também tinha muitas saudades deles e penso na estupidez que é, por vezes, “não termos tempo” para estarmos com quem queremos...



normalmente ... é só nestes pequenos momentos que damos importância às pessoas importantes...
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