Em passo ligeiro, de pé descalço, a jovem pastora caminha atrás das ovelhas e das cabras.
Entre assobios, toques com o cajado e latidos dos cães, encaminha o rebanho para os lameiros verdejantes ao pé da Ribeira do Codes.
Entre assobios, toques com o cajado e latidos dos cães, encaminha o rebanho para os lameiros verdejantes ao pé da Ribeira do Codes.

Chegando ao lameiro procurado, senta-se sobre uma rocha a guardar os animais e a saborear o dia lindo e soalheiro.
Espalhadas pela região, as conheiras lembram tempos de ouro que a fazem sonhar... Mais acima de onde está, uma passagem no meio da rocha valeu ao monte o nome de "Penedo Furado", e mais abaixo, a Ribeira corre, fresca e cristalina, como se cantasse.

Ela deixa-se estar sentada, a ouvir o canto da água, o canto dos pássaros até que...
Distingue, no meio de todas as melodias naturais, o canto de uma mulher.
Afinado, exótico, numa língua que ela não conhece e não percebe.
Levanta-se.
Devagar, dirige-se onde lhe parece vir o canto, melodioso e triste, dumas lajes a seguir à curva do rio.
Aproxima-se sem ruído, quase com medo, e espreita por entre as ervas e as árvores.

Vê-a.
Sentada numa laje, com uma pele morena e dourada, cabelos negros como carvão, vestida de sedas e cetins, enfeitada com jóias preciosas... Uma Moura.
A pentear os seus lindos e longos cabelos com um pente de ouro.
Tamanha maravilha, a pastora nunca vira.
Cobiçou o objecto, dourado e brilhante, que deslizava nos cabelos macios da Moura.
Aproximou-se um pouco mais, a tentar perceber como ficar com aquela jóia para os seus cabelos revoltosos e estragados, na esperança de ficar como os lindos cabelos da Moura.
Devagar, pé ante pé, sem ruído...
Um pau que estala, uma pedra que resvala, ela não se apercebe o que aconteceu, mas a Moura dá conta dela.
E olha na direcção dela, com os olhos grandes e escuros e tristes, como se lhe entrasse no profundo da Alma.
Em silêncio, fitam-se.
A jovem e alegre pastora pobre, a Moura rica e triste.
Perante o olhar da Moura, a pastora enche-se de coragem e estende a mão, pedindo-lhe o pente.
A Moura sorri, tristemente, e diz-lhe:
"Queres o pente, não é?...
Pois terás de te converter à minha fé.
E se mais se quiser,
um bezerro dourado estou a guardar,
a quem por bem vier,
e me souber amar..."
A pastora, cansada de pobreza e beatices, de padres bem vestidos e bem alimentados pelas ofertas forçadas dum povo pobre e inculto, aceita sem hesitar.
A ideia do bezerro dourado aguçou-lhe a coragem, pensando no irmão que poderia amar a bela Moura.
Acena com a cabeça, aceitando.
A Moura levanta-se da lage, as pernas esbeltas e morenas a vislumbrarem-se sob os véus de seda que a cobriam. Sorri e diz-lhe:
"Para à minha fé poderes rezar,
o céu da boca tenho de te beijar..."
E, perante os olhos da pastora, a bela Moura transforma-se numa serpente, para lhe ser mais fácil entrar na boca dela.
Assustada, a pastora grita e faz o sinal da cruz, virando costas e fugindo.
Com um silvo, amaldiçoada e presa no encantamento, a Moura esgueira-se e desaparece por entre as rochas, deixando um sulco gravado e pintado com pó de ouro que o tempo se encarregou de levar.
A pastora, essa, fugiu a sete-pés para junto da família e, mais tarde, recuperada a coragem, voltou armada e acompanhada, desceram pela passagem do Penedo, à procura da Moura, do bezerro dourado e dos outros tesouros guardados.
Procuraram atrás de cada árvore e erva, vasculharam nas rochas, mas... Nada.
Nem sinal de Moura, nem de bezerro nem de tesouro.
Apenas o sulco, provocado na fuga da Moura Encantada para as rochas, ficara como recordação da aventura e prova do medo da pastora...
(...)
Desse tempo, guardaram-se os ditos, mais tarde gravados em azulejos no miradouro do Penedo Furado:
"O tesouro no maior segredo,
Está em gruta bem guardado
Só o dará a amar sem medo
Sua linda moira encantada."
"Reza a Lenda da Bufareira:
Entre este Penedo Furado
e Bicha Pintada na Ribeira
Está lindo bezerro dourado."

A lembrar que não há Tesouros sem Coragem, e que não se vencem Encantamentos sem Amor...
(Versão muito livre "made by me" da Lenda do Penedo Furado e da Bicha Pintada, Vila de Rei, Portugal)



Amei as fotos...
ResponderEliminarSão tuas?
Eu Mesma!:
ResponderEliminarSão, sim senhora. Tiradas com o tmv, mas acho que dá para ter uma ideia do sítio. :)
Beijinhos :)